Esqueça o aluno médio

Esqueça o aluno médio

Para personalizar o aprendizado, esqueça o aluno médio

Cerimônia de encerramento do SXSWEdu, evento que contou com 400 sessões nos EUA, foca na personalização e na necessidade de olhar os alunos como indivíduos

por Tatiana Klix 11 de março de 2016

Após quatro dias e 400 sessões, que percorreram desde os caminhos para uma educação mão na massa (maker), passando pelo uso da tecnologia e de dados para melhorar o aprendizado até o hip-hop como ferramenta de ensino, o tema escolhido para a cerimônia de encerramento do SXSWEdu 2016 foi a personalização do aprendizado. A tendência já fez parte das discussões das seis edições do evento que ocorre anualmente em Austin, nos Estados Unidos. Mas olhar os alunos como indivíduos segue sendo um grande desafio.

“Talvez seja importante perguntar o que é personalização”, provocou Paul Reville, professor de práticas e políticas públicas na Escola de Educação de Harvard. “Na minha definição, é um sistema de educação que deixa as crianças serem elas mesmas na primeira infância, as desafia e dá suporte, serviços e orientação acadêmica para que sejam bem sucedidas em cada etapa escolar e oferece oportunidades para que alcancem seus objetivos ao longo da vida”.

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E como é comum nas discussões sobre o tema, que já ganhou um guia especial no Porvir, Reville lembrou que as escolas americanas – e do mundo todo – foram criadas seguindo o modelo industrial, que atendia as necessidades da organização econômica do século 20. “Funciona para alguns, mas para muitos, não”, afirmou sem surpreender a maior parte da plateia, já engajada em encontrar novos modelos de ensino. Esse sistema, segundo ele, cria uma falsa meritocracia e impulsiona a desigualdade, a um custo alto para as pessoas e a sociedade.

Embora reconheça as várias reformas escolares ocorridas nas últimas décadas no país e os esforços atuais para ensinar novos conteúdos e competências aos alunos, o palestrante identifica um problema no sistema, que não reconhece os alunos como indivíduos diferentes. Sem oferecer respostas prontas, Reville faz perguntas enfáticas: “O objetivo do processo educacional está correto? E as estratégias usadas?”

Para Todd Rose, que levou a reflexão para o campo da ciência, o que está errado é uma mentalidade. O cientista, também da Escola de Educação de Harvard e fundador da ONG Center for Individual Opportunity (Centro para Oportunidades Individuais, em livre tradução), não existe a pessoa que representa a média de todas as outras. Na palestra, ele usou alguns exemplos que comprovam sua afirmação, como uma pesquisa que escaneou vários cérebros e mostrou que, embora muitos se parecessem, nenhum era igual à representação do cérebro médio, e a descoberta, nos anos 50, pelas Força Aérea dos Estados Unidos, de que nenhum piloto tinha o tamanho médio, que era usado para desenhar as cabines das aeronaves.

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“Em todos os campos quando olhamos para os indivíduos descobrimos a mesma coisa: não existe uma célula média, não existe um câncer médio, nem um comportamento médio. E a lição mais importante para a educação é que não existe um estudante médio”, afirmou o autor do livro “The End of Average” (O Fim da Média, em livre tradução).

No entanto, na análise realizada por Rose, até hoje, os livros são criados para o que foi definido que o estudante médio deve aprender de cada conteúdo, os testes padronizados nivelam por uma média de aprendizado esperada e existem séries que definem o que os alunos médios devem aprender em cada ano.

O caminho para personalizar o ensino, para Rose, é esquecer a média e olhar para o indivíduo. E isso pode ser feito baseado num novo campo de estudos, a ciência da média.

“Três princípios dessa ciência ajudam a entender melhor os alunos como indivíduos: variação, contexto e trajetória”, explicou. A variação reconhece que as pessoas têm diferentes habilidades e dificuldades e não podem ser reduzidas a uma só nota. Já o contexto é uma forma bem fácil de comprovar que a média não existe, porque cada indivíduo vem de uma origem, família, condição social. “Nós sabemos que o contexto é importante e afeta o que as pessoas aprendem, mas é tão difícil de levá-lo em conta que preferimos ignorá-lo”, comentou o pesquisador. O terceiro princípio é o da a trajetória, que pode ser mais longa ou curta, mais ou menos rápida, dependendo do indivíduo. “É comum pensar que rapidez é sinal de inteligência, mas não é. Se formos flexíveis com o tempo do aprendizado, quase todos os alunos aprendem”, disse enquanto apresentava um gráfico mostrando o percurso de alunos que saíram atrás, mas alcançaram melhores resultados de aprendizagem no final.

Para engrossar o coro pela personalização, Connie Yowell, fundadora do LRNG, pediu ajuda do filho na última palestra do evento. Sam, de 16 anos, apareceu em um vídeo contando a sua rotina, que não se parece com um trajeto linear, nem representativa de uma média. Ele gosta de música e filmes, especialmente hip-hop, que estuda e toca. Pratica tênis todos os dias, assim como também gosta de jogar basquete ocasionalmente, só para se divertir. Na escola, participa de um grupo de discussão política e costuma contribuir com uma plataforma de direitos humanos. Também se interessa por artes visuais e está aprendendo fotografia. “Ele é um jovem ocupado, vivendo num mundo de abundância de aprendizado”, comentou a mãe.

Segundo ela, Sam não aprende apenas em um lugar, numa hora reservada para isso, mas consegue se envolver com o que gosta, troca informações com pares e cultiva relações com pessoas que são seus mentores. “Para Sam, aprender é um estilo de vida. Mas como fazemos para que funcione para todos da mesma forma que para ele?”. Segundo Connie, é preciso criar um sistema que conecte o prazer e o aprendizado e torne suas experiências visíveis. “A escola tem que estar em todos os lugares. Temos que mudar de um sistema estático para um mundo dinâmico”, diz.

A editora do Porvir, Tatiana Klix, acompanha o SXSWEdu de Austin

http://porvir.org/para-personalizar-aprendizado-esqueca-aluno-medio/




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